FLDr. Felipe Lemos

Manual Didático da Análise de Contingência Sintetizada Informada por Entrevista (IISCA)

Um guia prático para analistas do comportamento, da teoria à aplicação clínica.

Parte 1: Fundamentos Conceituais

Revisão da Análise Funcional (AF)

A Análise Funcional (AF) é o padrão-ouro na Análise do Comportamento Aplicada (ABA) para identificar a função de um comportamento desafiador. Seu propósito é determinar a relação de dependência entre o comportamento e variáveis ambientais, ou seja, por que o comportamento ocorre. A metodologia tradicional, estabelecida por Iwata e colegas (Iwata et al., 1982/1994), envolve a manipulação sistemática de antecedentes e consequentes em condições análogas (Atenção, Fuga, Sozinho e Controle/Brincar), para isolar a variável que mantém o comportamento. Por exemplo, se o comportamento ocorre predominantemente na condição de Fuga, quando uma tarefa é apresentada e o comportamento resulta na remoção da tarefa, dizemos que sua função é a fuga de demandas.

Apesar de sua robustez metodológica, a AF tradicional enfrenta limitações significativas em ambientes aplicados. O processo pode ser demorado, exigindo múltiplas sessões, o que é inviável em muitos contextos clínicos e escolares. Há também um risco associado, pois o procedimento pode evocar o comportamento desafiador repetidamente. Além disso, a validade social pode ser questionada, pois as condições análogas podem não representar fielmente as complexas contingências do ambiente natural da criança (Hanley, 2012).

Introdução à Avaliação Funcional Prática (PFA) e à IISCA

Em resposta a essas limitações, a Avaliação Funcional Prática (PFA, do inglês *Practical Functional Assessment*) surgiu com uma filosofia centrada em três pilares: Segurança, Dignidade e Rapidez. O objetivo é desenvolver avaliações eficientes, seguras, informadas por trauma e socialmente válidas que levem diretamente a tratamentos eficazes. Essa abordagem respeita o consentimento contínuo, ou seja, a criança deve escolher participar e ter a liberdade de se afastar da sessão.

Dentro dessa abordagem, a Análise de Contingência Sintetizada Informada por Entrevista (IISCA, do inglês *Interview-Informed Synthesized Contingency Analysis*) é a principal metodologia (Hanley et al., 2014). A "síntese de contingências" refere-se a combinar, em uma única condição de teste, múltiplas variáveis que, segundo o relato do cuidador, evocam o comportamento desafiador. Em vez de testar atenção, fuga e acesso a tangíveis separadamente, a IISCA testa uma hipótese mais ecológica: por exemplo, que o comportamento ocorre quando o acesso a um tablet é removido (acesso a tangível) E uma tarefa é apresentada (fuga de demanda) E a atenção do adulto é desviada (atenção). O reforçador que mantém o comportamento é, portanto, a restauração dessa combinação de reforçadores (o tablet, a remoção da tarefa e a atenção do adulto).

O pilar do processo é a entrevista com o cuidador. É por meio de uma conversa aberta e colaborativa que o analista formula uma hipótese precisa sobre quais variáveis sintetizar. Os objetivos da IISCA são, portanto, (a) identificar a combinação de Operações Estabelecedoras (OEs) que evoca o comportamento desafiador e (b) identificar o reforçador sintetizado que o mantém, pavimentando o caminho para um tratamento eficaz e individualizado.

Parte 2: A Entrevista da IISCA (Guia Prático)

Como Conduzir a Entrevista

A entrevista é uma conversa semiestruturada que busca compreender a perspectiva do cuidador. O objetivo não é preencher um checklist, mas sim construir uma narrativa sobre as experiências da pessoa. Comece com perguntas abertas que convidem à descrição:

  • "Fale-me sobre os melhores momentos que você passa com [nome da pessoa]. O que vocês fazem juntos que é realmente divertido e feliz?"
  • "Agora, pense nos momentos mais difíceis. Descreva para mim, passo a passo, a última vez que o comportamento desafiador aconteceu."
  • "O que você acha que ele(a) está tentando te dizer ou conseguir com esse comportamento?"
  • "Quando o comportamento acontece, o que você faz para que tudo volte ao normal o mais rápido possível?"

Durante a entrevista, use técnicas de escuta ativa: parafraseie o que o cuidador diz ("Então, o que você está me dizendo é que..."), valide seus sentimentos ("Isso parece incrivelmente estressante") e demonstre empatia. Ao final, sintetize as informações em voz alta para confirmar sua hipótese: "Pelo que conversamos, parece que o comportamento tende a ocorrer quando você pede para ele(a) desligar o videogame e se preparar para o banho, e as coisas se acalmam quando você permite mais cinco minutos de jogo. Isso soa correto?".

Tabela de Critérios: Faça vs. Não Faça

O Que Sempre Fazer

  • Perguntar sobre os melhores momentos da pessoa.
  • Validar os sentimentos e a experiência do cuidador.
  • Usar linguagem simples, clara e acessível.
  • Focar em "o que", "quando" e "onde" o comportamento ocorre.
  • Terminar a entrevista resumindo a hipótese e pedindo confirmação.

O Que Nunca Fazer

  • Usar jargões técnicos (ex: "operação estabelecedora").
  • Duvidar, julgar ou minimizar o relato do cuidador.
  • Focar apenas nos comportamentos desafiadores.
  • Transformar a conversa em um interrogatório.
  • Formular uma hipótese sem a validação do cuidador.

Guia de Adaptações

A entrevista deve ser flexível. Ao conversar com um professor, as perguntas podem focar no contexto da sala de aula: "Quais atividades acadêmicas são mais difíceis?" ou "Como a interação com os colegas afeta o comportamento?". Com membros da equipe de uma clínica, a linguagem pode ser ligeiramente mais técnica, mas o foco na validação e colaboração permanece.

Se as informações forem vagas ("Ele se irrita o dia todo"), use perguntas de afunilamento: "Se você tivesse que escolher um momento do dia em que é mais provável que isso aconteça, qual seria? Manhã, tarde ou noite?". Se houver inconsistências, aborde-as com curiosidade, não com acusação: "Interessante, antes você mencionou que ele gosta de blocos, mas agora parece que os blocos podem ser um gatilho. Você pode me ajudar a entender melhor quando os blocos são divertidos e quando não são?".

Parte 3: A Aplicação da IISCA (Protocolo Clínico)

Preparação da Sessão

O ambiente deve ser seguro e conter todos os materiais identificados na entrevista como altamente preferidos. A sessão deve ser informada por trauma, garantindo que a criança escolha participar e possa deixar o ambiente se desejar, maximizando o consentimento contínuo. A equipe deve definir o comportamento-alvo de forma mensurável, classificando-o como R1 (comportamentos perigosos) ou R2 (comportamentos não perigosos). O critério de segurança é primordial: defina o que constitui uma crise e qual será o procedimento de manejo, que geralmente envolve a interrupção da condição de teste e o retorno imediato à condição de controle.

Desenho e Implementação das Condições

Condição de Controle (Reforço Sintetizado)

Esta condição é o "paraíso" da pessoa, montado com base na entrevista. O objetivo é criar um ambiente tão enriquecido que a motivação para o comportamento desafiador seja zero. Todos os reforçadores identificados são fornecidos de forma contínua e não contingente. Se a entrevista revelou que a criança ama assistir a vídeos no tablet enquanto recebe atenção total do terapeuta, é exatamente isso que acontece. Esta condição é mantida por no mínimo 30 segundos com a criança feliz e engajada antes da introdução de uma nova tentativa de teste. Um controle eficaz é aquele em que o comportamento desafiador não ocorre.

Condição de Teste (Evocação Sintetizada)

Esta condição introduz as Operações Estabelecedoras (OEs) de forma progressiva e em etapas, para não evocar uma crise. O terapeuta, de forma calma, remove o reforço e apresenta uma demanda simples (ex: "Minha vez de usar o tablet. Vamos fazer um pouco de trabalho."). A condição é encerrada com a ocorrência do primeiro comportamento desafiador (R1 ou R2), e o terapeuta imediatamente retorna à condição de controle, dizendo: "Ok, tudo bem, pode ficar com o tablet." Se a criança emite uma comunicação funcional, a OE continua a progredir brevemente para ensinar tolerância, antes de entregar o reforçador.

Protocolo de Aplicação Passo a Passo

O fluxo da sessão geralmente segue um padrão de alternância rápida entre controle e teste:

  1. Início em Controle: A sessão sempre começa na condição de controle por alguns minutos para estabelecer o contexto reforçador e garantir que a criança esteja feliz e engajada.
  2. Introdução do Teste: O terapeuta apresenta as OEs sintetizadas de forma gradual.
  3. Contingência: Ao primeiro sinal do comportamento desafiador (R1 ou R2), o terapeuta imediatamente remove as OEs e restaura a condição de controle.
  4. Repetição: O processo é repetido várias vezes, sempre garantindo que a criança esteja feliz e engajada por no mínimo 30 segundos na condição de controle antes de iniciar um novo teste.

Coleta e Registro de Dados

Os dados essenciais são a frequência do comportamento por condição e a latência para a primeira ocorrência do comportamento após a introdução da condição de teste. Uma latência curta é um forte indicador de que a hipótese está correta. Abaixo, um modelo de folha de registro:

Tentativa Condição Latência (s) Frequência de CD Notas do Terapeuta
1 Controle N/A 0 Criança feliz e engajada com tablet.
2 Teste 4s 1 (R2: grito) Retorno imediato ao controle.
3 Teste 3s 2 (R2: grito, tapa na mesa) Retorno imediato ao controle.
4 Teste 5s 1 (R1: mordida na própria mão) Retorno imediato ao controle.

Parte 4: Análise, Interpretação e Resolução de Problemas

Análise Visual de Gráficos

A interpretação dos dados da IISCA é feita por meio de análise visual. O padrão ideal é uma clara diferenciação entre as condições.

Exemplo de Sucesso

O gráfico demonstra um resultado claro. Os comportamentos desafiadores (losangos) ocorrem exclusivamente na condição de teste (Em OE), quando as demandas são apresentadas. Na condição de controle (CP dur. SR), o paciente permanece engajado e sem comportamentos desafiadores. Esta diferenciação confirma a hipótese funcional.

Gráfico de IISCA com resultado de sucesso

Exemplo Inconclusivo

Este gráfico mostra um resultado inconclusivo. Há ocorrência de comportamentos desafiadores, tanto de menor intensidade quanto severos, na condição de teste (Em OE) e também na condição de controle (CP dur. SR). A ausência de diferenciação clara entre as condições impede a confirmação da hipótese e sugere a necessidade de uma reavaliação das variáveis.

Gráfico de IISCA com resultado inconclusivo

Critérios de Decisão e Resolução de Problemas

A função é considerada identificada com confiança quando: (1) o comportamento desafiador ocorre consistentemente na condição de teste, de preferência com latência curta, e (2) o comportamento desafiador está ausente ou em níveis muito baixos na condição de controle.

Quando os resultados são inconclusivos, é hora de solucionar problemas:

  • Comportamento no Controle: O "paraíso" não era bom o suficiente. A entrevista pode ter omitido um reforçador crucial, ou a qualidade do reforço fornecido pelo terapeuta não era alta o suficiente. A solução é enriquecer ainda mais a condição de controle.
  • Sem Comportamento no Teste: A EO não era forte o suficiente. Talvez a demanda fosse muito fácil, ou a remoção do item preferido não foi sentida como uma perda significativa. A solução é intensificar a EO (ex: apresentar uma tarefa mais difícil, remover mais itens).
  • Diferenciação Lenta ou Instável: Pode haver variáveis desconhecidas em jogo. Uma nova conversa com o cuidador pode ser necessária para refinar a hipótese.

Tabela Comparativa: Bons vs. Maus Resultados

Características de uma IISCA Bem-sucedida

  • Clara diferenciação entre as condições.
  • Comportamento desafiador ausente na condição de controle.
  • Evocação rápida e consistente do comportamento na condição de teste.
  • Controle claro sobre o comportamento (liga/desliga).
  • Confirmação da hipótese da entrevista.

Características de uma IISCA Malsucedida

  • Ausência de diferenciação entre as condições.
  • Ocorrência de comportamento desafiador na condição de controle.
  • Falha em evocar o comportamento na condição de teste.
  • Resultados instáveis e sem padrão claro.
  • Hipótese da entrevista não confirmada.

Referências

Hanley, G. P. (2012). Functional assessment of problem behavior: Dispelling myths, overcoming implementation obstacles, and developing new assessment methods. Behavior Analysis in Practice, 5(1), 54–72.

Hanley, G. P., Jin, C. S., Vanselow, N. R., & Hanratty, L. A. (2014). Producing meaningful improvements in problem behavior of children with autism via synthesized analyses and treatments. Journal of Applied Behavior Analysis, 47(1), 16–36.

Iwata, B. A., Dorsey, M. F., Slifer, K. J., Bauman, K. E., & Richman, G. S. (1994). Toward a functional analysis of self-injury. Journal of Applied Behavior Analysis, 27(2), 197–209. (Reprinted from Analysis and Intervention in Developmental Disabilities, 2, 3–20, 1982)

Jessel, J., Fruchtman, T., Raghunauth-Zaman, N., Leyman, A., Lemos, F. M., Val, H. C., Howard, M. & Hanley, G. P. (2024). A two step validation of the performance-based iisca: A trauma-informed functional analysis model. Behavior Analysis in Practice, 1–19. https://doi.org/10.1007/s40617-023-00792-2

Jessel, J., Hanley, G. P., & Ghaemmaghami, M. (2016). Interview-informed synthesized contingency analyses: Thirty replications and reanalysis. Journal of Applied Behavior Analysis, 49(3), 576–595.

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